[Carta Aberta ao Esporte]
- Giovanna Sociarelli
- Jan 25, 2022
- 8 min read
Eu não cresci apaixonada por futebol. Eu sei como grande parte das pessoas conhece esse amor desde cedo, mas comigo não foi assim. Eu me lembro de dormir aos domingos no horário dos jogos porque as narrações eram como canção de ninar. Meu pai, embora gostasse, nunca foi completamente apaixonado - e talvez tudo tenha piorado depois dos problemas que fizeram a Portuguesa ser rebaixada. Meu irmão sempre gostou muito do Palmeiras, mas acredito que eu tenha vindo ao mundo para ser do contra e não poderia seguir o mesmo caminho que ele. Fui criada para detestar o Corinthians, então passei alguns anos da minha vida me esforçando para torcer para o São Paulo. A verdade é que nunca me apaixonei pelo time, nem pelo esporte - e essa deve ter sido a razão pela qual abandonei completamente qualquer coisa relacionada a isso até meus 16 anos. Sempre que possível dizia que detestava futebol e que era uma das coisas mais bestas do mundo. Eu não era capaz de compreender o amor por um time (qualquer que fosse). Eu não entendia meu tio deixar de ver a família para ver o Santos jogar. Eu não entendia como meus amigos choravam quando o time era campeão e muito menos o porquê todo mundo falava sobre futebol a todo instante.
Eu sempre joguei handebol, sempre foi algo pelo qual eu fui apaixonada e, provavelmente, foi um dos maiores hobbies que tive durante a adolescência. Eu cresci jogando, cresci admirando pessoas como Duda Amorim, Babi Arenhart e a Dara. Mesmo assim, eu ainda não era capaz de compreender o poder do esporte na vida de alguém, como isso poderia ir tão fundo na essência da pessoa e como poderia influenciar suas atitudes, crenças e humor. Mas tudo mudou quando conheci a NFL. Na verdade, o impacto não foi tão imediato e, se eu dissesse algo do gênero, estaria mentindo. Eu conheci a liga em 2017 - meu irmão quem me apresentou e ensinou os primeiros passos para compreender aqueles caras se batendo o tempo inteiro - foi quando comecei a ver os primeiros jogos e busquei como o esporte surgiu, como evoluiu durante o tempo - e, para ser sincera, foi apenas um passatempo, pois eu não conseguia acompanhar os jogos ainda. Minha primeira lembrança marcante é ver o Super Bowl 52 com meu irmão e meu pai e passar muito tempo reclamando do show do Justin Timberlake. Também tenho vagas memórias de assistir jogos desses playoffs na casa de um primo torcedor do Saints. Não passava disso.
Eu realmente fui apresentada ao impacto que um esporte pode ter na vida de alguém em 2018, minha primeira temporada completa. Na realidade, eu mudei muito nesse ano, foi como se tivesse nascido uma nova Giovanna muito diferente daquela que já tinha vivido 14/15 anos. Eu tinha terminado meu namoro há pouco tempo e estava estudando em um ritmo em que ainda não estava acostumada. Acompanhar NFL se tornou minha válvula de escape para toda a loucura que minha vida tinha virado. Não só por ser o momento em que eu parava para assistir algo, mas por ser o momento em que eu poderia sentar e conversar com meu pai e meu irmão - foi quando consegui me conectar melhor com os dois.
Como já mencionei, sempre quis ser "do contra". Meu irmão é torcedor do Indianapolis Colts, então meu primeiro instinto foi dizer que iria torcer para o Houston Texans - você já sabe que isso não deu certo com futebol, por que eu achei uma boa ideia tentar com futebol americano? Para a minha glória, meu irmão disse que era uma péssima ideia, o que me fez tender a ser torcedora do Kansas City Chiefs, até porque o talento do Mahomes era algo que me encantava muito. Eu não sei dizer como, muito menos quando ou porque, mas um dia o New Orleans Saints apareceu na minha vida e absolutamente tudo mudou. Eu me apaixonei pelo time de uma forma que ainda não era capaz de compreender direito - aliás, o time de 2018 foi o mais bonito que eu vi até hoje - Drew Brees, Alvin Kamara, Mark Ingram e Michael Thomas, eu nunca vou me esquecer da sensação de ver todos eles juntos em campo. A final da NFC foi um momento divisor de águas: ali, no sofrimento, na dor, no momento mais triste do passado recente da franquia, eu entendia todo o amor que alguém poderia ter por um time de futebol. Foi naquele dia em que eu entendi como as pessoas poderiam basear seu humor em um esporte, como sua vida poderia ser dependente de algo em que você sequer tem controle. Foi naquele dia em que eu entendi o amor em sua forma mais pura, e ao mesmo tempo dura, que alguém pode presenciar.
Logo nessa offseason, lembro bem de receber uma notificação dizendo que o Mark Ingram estava de saída do Saints. Eu ainda não entendia sobre cap, muito menos de transações, contratos ou qualquer coisa que fosse mais avançada que a página 2. Lembro de brigar feio com meu irmão naquele dia porque ele me disse que a saída "era esperada", o que me fez ficar fuzilada de ódio por ele ter deixado eu me apaixonar por um homem que iria sair logo e não ter me contato esse pequeno detalhe. Nesse momento, você já deve ter percebido como eu era outra pessoa. Ainda em 2019, comecei a postar minhas bravezas sem qualquer conhecimento no twitter e acabei conhecendo alguns torcedores do Saints. Eu me achava incrível por conhecer pessoas que assistiam futebol americano e produziam conteúdo, para mim, aquilo era algo simplesmente surreal.
O futebol americano, aos poucos, tornou-se parte majoritária da minha vida. Quanto mais tempo eu passava no twitter lendo sobre, mais eu aprendia sobre a franquia, sobre a história da liga - e mais o meu amor com o esporte aumentava. Se saía aos domingos, sempre arrumava uma forma de ver o jogo do Saints onde quer que eu estivesse. Estava sempre postando/pistolando sobre isso, algo que me fez conhecer muitas pessoas. O futebol americano deixou de ser um esporte para mim e passou a ser minha forma de me comunicar com o mundo. Foi através dele que conheci meus melhores amigos, que me apaixonei algumas vezes e que, a maior e mais importante parte de todas, criei a conexão com a minha família, que muitos têm desde cedo com futebol. O momento de assistir NFL virou o momento em que eu, meu irmão e meu pai sentávamos juntos para fazer algo em família, além de ter se tornado o nosso maior assunto dentro de casa. Eu posso cravar com todas as letras que foi o futebol americano que me fez ser tão próxima do meu irmão hoje, que fez nós dois sermos tão ligados. Por mais que a gente discuta sobre muitas coisas e que nossas concepções de jogo sejam muito diferentes, é através de NFL que podemos estar próximos sempre. Foi assim que descobri como as famílias se sentiam ao se reunir nos domingos para ver futebol. Foi assim que entendi porque meu tio não ia aos eventos de família para assistir o Santos. Foi assim que eu entendi porque meus amigos estavam sempre brigando por causa de um simples jogo.
Em 2020, o Rui do BRFFootball enxergou potencial em mim para começar a trabalhar com eles - embora eu não fizesse a mínima ideia do que era fantasy e de como eu poderia contribuir de alguma forma para a página dele e do Caio. Com o passar dos meses, Lucas Silva me ofereceu uma oportunidade no Blog Saída Falsa, e eu juro que não faço a mínima ideia do porque ele me contratou com uma análise HORRÍVEL e RASA sobre a AFC East pós Tom Brady. Aprendi que, para produzir conteúdo, eu precisava ler, consumir o que outras pessoas falavam, assistir lives, ouvir podcasts, ler opiniões tanto brasileiras quanto estadunidenses - e foi dessa forma, com muita dedicação, que eu melhorei daquele LIXO de texto. Olhando para trás, sou muito grata como tudo aconteceu de forma tão intensa e tão rápida na minha vida. A produção de conteúdo entrou na minha vida em um dos piores momentos dela: a pandemia, e foi o que me manteve forte todos os dias, foi o que me fez esquecer da saudade dos meus amigos ou do que era estar separada de todos os que eu amava por tanto tempo. As coisas estavam difíceis, mas, todas as vezes que eu sentava para escrever um texto, parece que o mundo era um novo lugar e que tudo o que importava era eu e as teclas frias do meu computador.
Foi aos poucos que descobri sobre como NFL me salvou. Talvez hoje eu ainda não tenha a ideia inteira sobre como tudo se encaixou aos poucos, mas foi ela que esteve lá quando desabou e também foi ela que me uniu a minha família. Foi através do esporte, mais especificamente do twitter, que conheci as pessoas com quem converso todos os dias, que seguram na minha mão e também brigam como quando estou errada. São pessoas que eu sei que posso ligar às 4 horas da manhã e que vão estar lá para mim.
Também foi essa conexão que me fez voltar a acompanhar futebol. Passei a maior parte da minha vida achando que eu odiava ele, mas a verdade é que eu não estava confortável com o cenário que tentei impor para mim mesma. Com a minha relação e do meu irmão em um nível muito melhor, começamos a ver os jogos do Palmeiras juntos, o que fez vê-lo comemorar títulos de Libertadores, Copa do Brasil e, agora, Copinha. Mas ainda não era minha família, ainda não era nada parecido com o que o Saints era para mim. Foi aí que o Atlético Mineiro apareceu e me cativou tão rápido e tão de repente que seria até difícil explicar o que aconteceu. Simplesmente me apaixonei pelo meu time - e fui muito bem influenciada para isso. O Galo virou minha forma de comunicação com dois dos meus melhores amigos. Não importava meu humor ou o quão louca eu estivesse estudando para o vestibular, no final do dia eu poderia conversar com os dois sobre pênaltis, faltas e até discutir o que um de nós três estaríamos fazendo e estava trazendo azar para o time. Levou 17, quase 18 anos, para eu aprender o que é amor por um time de futebol. Levou quase 18 anos para que eu pudesse ter assunto com os amigos do meu pai e que também pudesse entender o amor deles.
Hoje vejo como o esporte move a minha vida. Eu acordo falando sobre isso e vou dormir falando sobre isso também. Minhas maiores amizades foram criadas por causa dele. As antigas se fortaleceram por causa dele. Minha família ficou ainda mais unida por causa dele. Eu aprendi a me comunicar com tantas pessoas quando conheci o amor pelo esporte. Aliás, o esporte me ensinou muitas coisas: como falar bem, como brincar, quando devo parar, quando devo seguir, como tratar os outros, como não tratar os outros, quando falo demais. Ensinou, também, que devo ser resiliente, que devo sonhar e que nunca devo desistir. Talvez uma das maiores coisas que eu aprendi foi a ser forte. Não foi fácil, nada nunca é fácil, mas eu aprendi apanhando que devemos fechar os hematomas e seguir com o sorriso no rosto. Por mais que às vezes você só queira voltar para casa, deitar e chorar em posição fetal, precisamos aprender que só o que deixamos é realmente capaz de causar ferimentos graves. Aprendi a ter controle sobre o quanto a opinião de alguém pode afetar o que estou sentindo e que sou capaz de conquistar qualquer coisa se eu estiver disposta a lutar por aquilo. Aprendi que não importam as adversidades, eu sempre vou ter nos meus times um lugar para voltar. Sempre vou ter na produção de conteúdo um lugar para esquecer os problemas. Sempre vou ter no esporte as maiores amizades que já construí. Não é só um esporte, nunca será, é sobre tudo e ao mesmo tempo nada.
"O esporte é muito mais que socialização, educação, lazer e saúde. Ele engloba tudo isso e mais um pouco, pois esporte é vida e feito de vidas" Patrícia Cassol
Sou a Rita, ou melhor, sou a tia Rita e estou perplexa em saber, por meio desse texto, o quanto minha "florzinha" escreve. Sucesso, minha linda!!! quero ler as suas linhas e viajar nelas.